sábado, março 11, 2006

Ciclo

Puxou as cortinas buscando a luminosidade perfeita. Arrastou a tela para o centro do salão e começou a pincelar vagarosamente o espaço branco que a confrontava. Os primeiros traços davam vida à paisagem que brotava ainda nua e crua. Aos poucos a idéia foi ganhando contornos mais densos, preenchendo o papel em sua totalidade.

Parou diante da obra que nascia, enxugando a testa, envolvida numa confusão de cores que deixava na roupa a marca do embate entre artista e criatura. Deu dois passos para trás tentando encontrar alguma falha mas tudo transcorria perfeitamente até ali, prosseguiu delineando as dimensões causando uma explosão de tons e imagens.

Uma gota azul começou a escorrer do céu desenhado, descia pelo desenho abrindo um caminho não arquitetado. Correu com o aparador de tinta na ânsia de evitar o estrago. A mão esquerda, trêmula, tentava cessar o escorrimento.

Os pássaros vivos com a tinta ainda fresca, foram se transformando em borrões que pingavam branco manchando o mar embaixo. Esticou o braço direito pela vida das demais aves. A posição incômoda, com os braços abertos, causava fadiga. O suor que descia pelo pescoço servia para mostrar que tudo tem um preço.

Ao fundo o sol avermelhado secava refletindo o entardecer. Decidiu consertar a gota que insistia em cair do céu, desistindo dos pássaros. Alguns secaram, outros caíram no mar, para mostrar que a natureza possuía seu próprio ciclo de renovação.

As mãos doíam agora. Foi até a janela e abriu as cortinas deixando a luz secar a tela. Amanhã a obra estaria seca, pronta, como o amanhecer lá de fora.




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