Quinta-feira, Agosto 31, 2006
Redenção e Liberdade
O céu estava colorido. A aurora tingia o horizonte e o sol esquentava o asfalto. Ele estava caminhando há quase duas horas. O paletó pendia sobre o ombro direito e na mão esquerda segurava um envelope. De quando em vez alguns carros passavam pela rodovia quase deserta. Eram suas companhias momentâneas. Ele seguia em frente a passos decididos.
Ele estava absorto em pensamentos. Ia contornando à beira do asfalto quando reparou que sua jornada ia terminando. À sua direita, bem lá embaixo havia o mar. Era o sinal de que ele estava no caminho certo. Prosseguiu sem pressa observando o agito frenético das gaivotas que circundavam sobre a praia.
Estava há uns quinhentos metros acima do mar e sabia que na sua frente havia uma descida regular. O asfalto esburacado ia ditando seu ritmo e seus passos. Aos poucos a tarde ia se dissipando e a temperatura ia caindo. Resolveu acelerar temendo não chegar a tempo. Já podia ouvir as cigarras noturnas invadindo o ambiente e os carros começavam a passar com os faróis acesos.
Ele permanecia afogado em sua mente. Era como se estivesse discutindo com suas próprias idéias. Era um monólogo. E isto o fez nem perceber que o asfalto já acabava e que ele já estava bem próximo do ponto final. Precisou sentir as folhas secas sob seus pés para atentar de que já se encontrava no chão batido e que logo ali na frente ele avistava a enorme árvore. Um imenso carvalho. O outono dava o toque espetacular e a falta de qualquer outro ser humano, ali, denunciava uma paz quase rara. Só a algazarra das gaivotas teimava em arranhar o silêncio contemplado por ele e por mais ninguém.
Quando chegou perto da árvore, sentou e abriu o envelope. Retirou uma carta. Quatro folhas escritas a mão. A letra era uma letra feminina. Bem desenhada. Ele encostou-se no carvalho e começou a lê-la. Sua expressão foi mudando. Esticou as pernas e se apoiou com uma das mãos ficando quase deitado sobre a folhagem.
À medida que ia lendo, sentia-se desajeitado, inquieto. Ajeitou-se e apoio sua mão esquerda no queixo segurando o papel com a outra mão. Seus contornos faciais iam relaxando e ele olhou para o lado de relance como quem precisar reler um parágrafo. A tristeza ia dominado-o gradativamente. Era um confronto desigual. Ele sabia que as palavras poderiam derrubar um ser humano, mas não daquela forma.
Passou para a segunda página. Ali ele já estava entregue. A leitura era cada vez mais devagar. Ele lia e relia ao mesmo tempo cada frase, cada sentença. Ele ia lendo e imaginando em sua mente o que a carta dizia. Tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto. A tensão era visível. Sorte dele que estava sozinho. O acidente ia ganhando formas outra vez.
Era demasiado doloroso quando se lembrava da tragédia. Mas esta carta ele tinha de ler. Ela tinha escrito à tarde, no dia anterior enquanto ele estava no banho. Ela escreveu, pegou a bicicleta e foi esperar por ele na beira do rio. Era uma carta comum, mas que continha coisas particulares ao casal. Coisas que ela precisava dizer e queria dizer.
Mas ele, naquela tarde, saiu do banho e distraidamente esqueceu de ler a carta que estava em cima de seu travesseiro. Na verdade ele preferiu ir ao encontro dela, pois a saudade era maior. A carta que ficasse para depois.
Vestiu-se e foi atrás dela. Sabia que ela estava no rio a duas quadras de casa. Eles estavam juntos e pretendiam permanecerem juntos. Uma semana antes ele havia feito uma carta para ela e sabia que agora ela estava retribuindo o presente. Mas ele queria mesmo era estar com ela e por isso saiu deixando o envelope lacrado.
Na metade do caminho o mundo caiu. Um acidente na auto-estrada. Quando percebeu já estava correndo com o coração acelerado. Inevitavelmente ela fora atropelada e estava partindo. Ele ainda teve tempo de segurá-la no colo enquanto chorava. Ela sorria dizendo que nem sentia mais a dor dilacerante e em meio à dificuldade de pronunciar as palavras, perguntou se ele tinha lido a carta que ela deixara em cima do travesseiro dele.
Ele respondeu secamente que não. Não gostava de mentiras e não ia mentir justamente naquele instante, naquele momento. Ela sorriu novamente e disse que ele deveria ler quando chegasse em casa e imediatamente ele explicou que pretendia ler a carta juntamente com ela e que a culpa era da saudade. Então ela partiu.
Ele voltou a realidade e começava a ler a terceira página. Terminou o flashback mental e prometeu que não pensaria mais nesse dia terrível. As gaivotas já haviam deixado a paisagem e a noite descia pacientemente. Agora ela dizia sobre o futuro e as coisas que queria fazer com ele. Registrou os planos e as promessas de uma vida feliz. E então ele chegou na quarta página e era ali que ela pedia que ele lesse a carta a sós e que depois fosse ler com ela, embaixo do carvalho localizado ao fim do asfalto que cerceava a ilha.
E lá estava ele. Mas ela não estava ali presente, nem ela nem as gaivotas. Então ele acordou assustado. Havia sonhado, um pesadelo. Virou para o lado e viu que ela estava dormindo aconchegante ao teu lado. Eram seis horas da manhã e o sol começava a iluminar o quarto.
Bem depressa ele a acordou. Estava agitado e suado. Pediu que ela o seguisse e antes que trocassem os pijamas, saíram em disparada. Ele na frente e ela atrás. Ele a arrastava com a mão direita e segurava um envelope com a mão esquerda. Foram inaugurando a brisa matinal e ela nada entendia do que se passava.
Estava reclamando que ainda queria dormir e que não havia tido tempo nem de tomar um banho e vestir-se direito. Ele nem a escutava, apenas corria rumo ao seu ponto de chegada. Mais agitado que ele só as gaivotas. Foi quando chegou. Lembrou que no sonho a sua caminhada durava muito mais que os dez minutos, ali presente, mas, isso pouco importava. Agarrou-lhe pela cintura e os dois caíram sentados na relva.
Entre mimos e carícias ele a encarou seriamente e abriu o envelope. Ela soltou uma exclamação e então ele começou a ler a carta que ela tinha feito. Na primeira linha estava escrito algo que o fez sorrir.
Leia comigo num lugar só nosso...

Ele respirou fundo, afagou os cabelos dela e começou a ler com ela, pois além das gaivotas ela também estava ali!
Nota: eu consegui criar a história, mas o conteúdo da carta, este cabe a cada pessoa imaginar aquilo que carregar dentro de si...
Ele estava absorto em pensamentos. Ia contornando à beira do asfalto quando reparou que sua jornada ia terminando. À sua direita, bem lá embaixo havia o mar. Era o sinal de que ele estava no caminho certo. Prosseguiu sem pressa observando o agito frenético das gaivotas que circundavam sobre a praia.
Estava há uns quinhentos metros acima do mar e sabia que na sua frente havia uma descida regular. O asfalto esburacado ia ditando seu ritmo e seus passos. Aos poucos a tarde ia se dissipando e a temperatura ia caindo. Resolveu acelerar temendo não chegar a tempo. Já podia ouvir as cigarras noturnas invadindo o ambiente e os carros começavam a passar com os faróis acesos.
Ele permanecia afogado em sua mente. Era como se estivesse discutindo com suas próprias idéias. Era um monólogo. E isto o fez nem perceber que o asfalto já acabava e que ele já estava bem próximo do ponto final. Precisou sentir as folhas secas sob seus pés para atentar de que já se encontrava no chão batido e que logo ali na frente ele avistava a enorme árvore. Um imenso carvalho. O outono dava o toque espetacular e a falta de qualquer outro ser humano, ali, denunciava uma paz quase rara. Só a algazarra das gaivotas teimava em arranhar o silêncio contemplado por ele e por mais ninguém.
Quando chegou perto da árvore, sentou e abriu o envelope. Retirou uma carta. Quatro folhas escritas a mão. A letra era uma letra feminina. Bem desenhada. Ele encostou-se no carvalho e começou a lê-la. Sua expressão foi mudando. Esticou as pernas e se apoiou com uma das mãos ficando quase deitado sobre a folhagem.
À medida que ia lendo, sentia-se desajeitado, inquieto. Ajeitou-se e apoio sua mão esquerda no queixo segurando o papel com a outra mão. Seus contornos faciais iam relaxando e ele olhou para o lado de relance como quem precisar reler um parágrafo. A tristeza ia dominado-o gradativamente. Era um confronto desigual. Ele sabia que as palavras poderiam derrubar um ser humano, mas não daquela forma.
Passou para a segunda página. Ali ele já estava entregue. A leitura era cada vez mais devagar. Ele lia e relia ao mesmo tempo cada frase, cada sentença. Ele ia lendo e imaginando em sua mente o que a carta dizia. Tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto. A tensão era visível. Sorte dele que estava sozinho. O acidente ia ganhando formas outra vez.
Era demasiado doloroso quando se lembrava da tragédia. Mas esta carta ele tinha de ler. Ela tinha escrito à tarde, no dia anterior enquanto ele estava no banho. Ela escreveu, pegou a bicicleta e foi esperar por ele na beira do rio. Era uma carta comum, mas que continha coisas particulares ao casal. Coisas que ela precisava dizer e queria dizer.
Mas ele, naquela tarde, saiu do banho e distraidamente esqueceu de ler a carta que estava em cima de seu travesseiro. Na verdade ele preferiu ir ao encontro dela, pois a saudade era maior. A carta que ficasse para depois.
Vestiu-se e foi atrás dela. Sabia que ela estava no rio a duas quadras de casa. Eles estavam juntos e pretendiam permanecerem juntos. Uma semana antes ele havia feito uma carta para ela e sabia que agora ela estava retribuindo o presente. Mas ele queria mesmo era estar com ela e por isso saiu deixando o envelope lacrado.
Na metade do caminho o mundo caiu. Um acidente na auto-estrada. Quando percebeu já estava correndo com o coração acelerado. Inevitavelmente ela fora atropelada e estava partindo. Ele ainda teve tempo de segurá-la no colo enquanto chorava. Ela sorria dizendo que nem sentia mais a dor dilacerante e em meio à dificuldade de pronunciar as palavras, perguntou se ele tinha lido a carta que ela deixara em cima do travesseiro dele.
Ele respondeu secamente que não. Não gostava de mentiras e não ia mentir justamente naquele instante, naquele momento. Ela sorriu novamente e disse que ele deveria ler quando chegasse em casa e imediatamente ele explicou que pretendia ler a carta juntamente com ela e que a culpa era da saudade. Então ela partiu.
Ele voltou a realidade e começava a ler a terceira página. Terminou o flashback mental e prometeu que não pensaria mais nesse dia terrível. As gaivotas já haviam deixado a paisagem e a noite descia pacientemente. Agora ela dizia sobre o futuro e as coisas que queria fazer com ele. Registrou os planos e as promessas de uma vida feliz. E então ele chegou na quarta página e era ali que ela pedia que ele lesse a carta a sós e que depois fosse ler com ela, embaixo do carvalho localizado ao fim do asfalto que cerceava a ilha.
E lá estava ele. Mas ela não estava ali presente, nem ela nem as gaivotas. Então ele acordou assustado. Havia sonhado, um pesadelo. Virou para o lado e viu que ela estava dormindo aconchegante ao teu lado. Eram seis horas da manhã e o sol começava a iluminar o quarto.
Bem depressa ele a acordou. Estava agitado e suado. Pediu que ela o seguisse e antes que trocassem os pijamas, saíram em disparada. Ele na frente e ela atrás. Ele a arrastava com a mão direita e segurava um envelope com a mão esquerda. Foram inaugurando a brisa matinal e ela nada entendia do que se passava.
Estava reclamando que ainda queria dormir e que não havia tido tempo nem de tomar um banho e vestir-se direito. Ele nem a escutava, apenas corria rumo ao seu ponto de chegada. Mais agitado que ele só as gaivotas. Foi quando chegou. Lembrou que no sonho a sua caminhada durava muito mais que os dez minutos, ali presente, mas, isso pouco importava. Agarrou-lhe pela cintura e os dois caíram sentados na relva.
Entre mimos e carícias ele a encarou seriamente e abriu o envelope. Ela soltou uma exclamação e então ele começou a ler a carta que ela tinha feito. Na primeira linha estava escrito algo que o fez sorrir.
Leia comigo num lugar só nosso...

Ele respirou fundo, afagou os cabelos dela e começou a ler com ela, pois além das gaivotas ela também estava ali!
Nota: eu consegui criar a história, mas o conteúdo da carta, este cabe a cada pessoa imaginar aquilo que carregar dentro de si...
Quarta-feira, Agosto 30, 2006
Madura
Fui a uma danceteria semana passada com uns amigos. Enquanto dançávamos aproveitando a noite que se fazia lá fora e a escuridão que se fazia lá dentro, um dos meus camaradas sumiu da nossa companhia e foi sentar-se recolhido num canto qualquer. Eis então que uma alma feminina senta-se ao teu lado:
Ela: olá! Ando a entrevistar os jovens bonitos dessa danceteria. Como és?
Ele: sou bem tímido.
Ela: ah! És tímido?
Ele: (risos)
Ela: (se aproxima suspendendo o vestido)... atrapalho-te?
Ele: não, não, não. Fica aqui comigo! Já dancei demais!
Ela: eu não venho para dançar. Venho para assuntos mais objetivos.
Ele: (corado)... posso pagar-lhe um drink?
Ela: o que beberemos?
Ele: (querendo impressionar, vai até o balcão e volta com um refrigerante sprite)... só bebo água com gás!
Ela: nesse caso, vou tomar uma vodka.
Ele: esqueci de meus amigos.
Ela: não quero a eles! Quero a ti!
Ele: gosto de fêmeas assim, diretas!
Ela: (enruga a testa)... Mas não és tímido?
Ele: eu tímido? Nunca fui tímido.
Ela: ah sim... ouvi mal então no início da conversa.
Ele: daqui nós vamos para onde?
Ela: não sei! Sabe dirigir?
Ele: ok, ok, estás depressa! Tu és virgem?
Ela: (jogando o cabelo de lado)... esse é meu “minino”...
(nesse instante a música pára e as luzes se acendem por alguns segundos, ele então percebe que ela poderia ser a sua bisavó).
Dizem que a maquiagem rejuvenesce...

Fui muito amigo dele, não pude fornecer os detalhes!
Nota: ele ainda é meu amigo, coube a mim ocultar os nomes...
Ela: olá! Ando a entrevistar os jovens bonitos dessa danceteria. Como és?
Ele: sou bem tímido.
Ela: ah! És tímido?
Ele: (risos)
Ela: (se aproxima suspendendo o vestido)... atrapalho-te?
Ele: não, não, não. Fica aqui comigo! Já dancei demais!
Ela: eu não venho para dançar. Venho para assuntos mais objetivos.
Ele: (corado)... posso pagar-lhe um drink?
Ela: o que beberemos?
Ele: (querendo impressionar, vai até o balcão e volta com um refrigerante sprite)... só bebo água com gás!
Ela: nesse caso, vou tomar uma vodka.
Ele: esqueci de meus amigos.
Ela: não quero a eles! Quero a ti!
Ele: gosto de fêmeas assim, diretas!
Ela: (enruga a testa)... Mas não és tímido?
Ele: eu tímido? Nunca fui tímido.
Ela: ah sim... ouvi mal então no início da conversa.
Ele: daqui nós vamos para onde?
Ela: não sei! Sabe dirigir?
Ele: ok, ok, estás depressa! Tu és virgem?
Ela: (jogando o cabelo de lado)... esse é meu “minino”...
(nesse instante a música pára e as luzes se acendem por alguns segundos, ele então percebe que ela poderia ser a sua bisavó).
Dizem que a maquiagem rejuvenesce...

Fui muito amigo dele, não pude fornecer os detalhes!
Nota: ele ainda é meu amigo, coube a mim ocultar os nomes...
Sábado, Agosto 26, 2006
Tristeza
Trancou-se solitariamente. Decidiu que deveria começar. Afastou de si qualquer sentimento que pudesse desanimá-lo. As primeiras pinceladas foram desajustadas. Estava inseguro e sabia disso perfeitamente. A tela era retangular e o branco a ser preenchido era extenso e desafiador. Mais desafiador era o frio lá fora. A neve branca combinava com a tela.
Decidiu começar do alto. Não que fosse mais fácil. Não era isso. Nada era fácil. Justamente pela dificuldade que preferia começar dali. Ia pincelando e misturando o branco no azul claro. Pretendia alcançar a textura perfeita. À medida que os detalhes ganhavam vida, suas mãos iam tremendo mais e mais.
Seus movimentos iam ganhando velocidade e o ritmo cadenciado ia fazendo surgir o seu desejo. Pousou o pincel na mesa e começou a preparar os outros tons. Lá fora a noite começava a descer e a neve era mais intensa. Como gostava do silêncio. Dele e do perfeccionismo. Precisava imaginar um mar. Desabotoou o avental e abandonou seu trabalho. Com as duas mãos na cintura, foi caminhando até à porta. Quis acender um cigarro, mas deteve-se.
Guardou o maço no bolso novamente e deu meia volta. Na mesa, havia uma aquarela, um relógio de bolso, um porta-retrato e uma chave. Pegou a chave na mão e desenhou um “S” na mesa. Imediatamente ele sentiu um arrepio que congelou sua espinha. Pegou o pincel novamente e começou a construir a imagem que representava a letra desenhada na mesa.
Os contornos iam ganhando dimensões impressionantes. Os traços delineados ditavam o sentimentalismo na obra. Ele não errava o compasso. O contraste das cores sugeria cuidado absoluto nos retoques. Parou por um segundo e olhou novamente a letra “S”. A idéia ia ganhando aparência juntamente com o cinza do asfalto. As pedrinhas da calçada eram demarcadas milímetro a milímetro. Coisa de artista, diriam.
Ao imaginar sua própria crítica, deixou escapar um sorriso discreto. Mesmo sozinho, temia em chamar a atenção. Agora a noite se fazia por completa lá fora. E dentro do depósito, sua obra ia sendo concluída. Seu coração ia acelerando ao passo que tudo ia ficando pronto. Estava nervoso agora. Temia errar. Estava cansado e com os braços doloridos. Apesar do frio, suava intensamente.
Precisava concluir o mais depressa possível. Já estava ali há horas e seu corpo não agüentava mais. Como a madrugada passava depressa. Receava morrer na praia. Mas afastou esse pensamento imediatamente. Não podia desistir agora que quase conseguia atingir seu objetivo. A ansiedade aumentava.
Então ele parou. Passou a mão na testa retirando o suor. Ficou mirando a tela preenchida. Sentiu um orgulho que logo o abandonou. Franziu a testa e sentiu que faltava algo ali. Foi até a mesa e olhou as horas no relógio. Encarou a letra “S” com seriedade e dali fitou a tela por quase um minuto. Tinha a idéia concreta do que a letra significava, mas não conseguia passar para a vida real.
Pegou o pincel decidido. Seria o último detalhe da obra. O desenho foi ganhando aspecto perante o ambiente criado na tela. Ele conseguiu permanecer com a idéia original e ao mesmo tempo, completar o seu trabalho de forma realista e não surrealista, afinal de contas, o quadro estava pronto.
A letra "S" poderia significar alguém ou qualquer coisa. O quadro significava solidão, por que a saudade, esta ele não conseguiu expressar em cores, apenas sentir na escuridão...

Na vida, o que liga a saudade é uma jornada, não um interruptor.
Decidiu começar do alto. Não que fosse mais fácil. Não era isso. Nada era fácil. Justamente pela dificuldade que preferia começar dali. Ia pincelando e misturando o branco no azul claro. Pretendia alcançar a textura perfeita. À medida que os detalhes ganhavam vida, suas mãos iam tremendo mais e mais.
Seus movimentos iam ganhando velocidade e o ritmo cadenciado ia fazendo surgir o seu desejo. Pousou o pincel na mesa e começou a preparar os outros tons. Lá fora a noite começava a descer e a neve era mais intensa. Como gostava do silêncio. Dele e do perfeccionismo. Precisava imaginar um mar. Desabotoou o avental e abandonou seu trabalho. Com as duas mãos na cintura, foi caminhando até à porta. Quis acender um cigarro, mas deteve-se.
Guardou o maço no bolso novamente e deu meia volta. Na mesa, havia uma aquarela, um relógio de bolso, um porta-retrato e uma chave. Pegou a chave na mão e desenhou um “S” na mesa. Imediatamente ele sentiu um arrepio que congelou sua espinha. Pegou o pincel novamente e começou a construir a imagem que representava a letra desenhada na mesa.
Os contornos iam ganhando dimensões impressionantes. Os traços delineados ditavam o sentimentalismo na obra. Ele não errava o compasso. O contraste das cores sugeria cuidado absoluto nos retoques. Parou por um segundo e olhou novamente a letra “S”. A idéia ia ganhando aparência juntamente com o cinza do asfalto. As pedrinhas da calçada eram demarcadas milímetro a milímetro. Coisa de artista, diriam.
Ao imaginar sua própria crítica, deixou escapar um sorriso discreto. Mesmo sozinho, temia em chamar a atenção. Agora a noite se fazia por completa lá fora. E dentro do depósito, sua obra ia sendo concluída. Seu coração ia acelerando ao passo que tudo ia ficando pronto. Estava nervoso agora. Temia errar. Estava cansado e com os braços doloridos. Apesar do frio, suava intensamente.
Precisava concluir o mais depressa possível. Já estava ali há horas e seu corpo não agüentava mais. Como a madrugada passava depressa. Receava morrer na praia. Mas afastou esse pensamento imediatamente. Não podia desistir agora que quase conseguia atingir seu objetivo. A ansiedade aumentava.
Então ele parou. Passou a mão na testa retirando o suor. Ficou mirando a tela preenchida. Sentiu um orgulho que logo o abandonou. Franziu a testa e sentiu que faltava algo ali. Foi até a mesa e olhou as horas no relógio. Encarou a letra “S” com seriedade e dali fitou a tela por quase um minuto. Tinha a idéia concreta do que a letra significava, mas não conseguia passar para a vida real.
Pegou o pincel decidido. Seria o último detalhe da obra. O desenho foi ganhando aspecto perante o ambiente criado na tela. Ele conseguiu permanecer com a idéia original e ao mesmo tempo, completar o seu trabalho de forma realista e não surrealista, afinal de contas, o quadro estava pronto.
A letra "S" poderia significar alguém ou qualquer coisa. O quadro significava solidão, por que a saudade, esta ele não conseguiu expressar em cores, apenas sentir na escuridão...

Na vida, o que liga a saudade é uma jornada, não um interruptor.
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Gostos vs Sabores
Ok, ok, a gaja nem é propriamente bela, mas a alegria da foto apetecia-me.

Os homens hão de me compreender...
Acompanhar a foto com esta história:
Adolfo: eu gosto de mulheres sérias e de personalidade forte...
Rodolfo: gosto mesmo é de mulheres justas e corretas...
Astolfo: eu cá, gosto de mulheres alegres e brincalhonas...
Leopoldo: eu prefiro as mulheres espertas e inteligentes...
Nota: o detalhe da foto destina-se aos homens, a discussão destina-se às mulheres. Qual tipo de homem vocês preferem?

Os homens hão de me compreender...
Acompanhar a foto com esta história:
Adolfo: eu gosto de mulheres sérias e de personalidade forte...
Rodolfo: gosto mesmo é de mulheres justas e corretas...
Astolfo: eu cá, gosto de mulheres alegres e brincalhonas...
Leopoldo: eu prefiro as mulheres espertas e inteligentes...
Nota: o detalhe da foto destina-se aos homens, a discussão destina-se às mulheres. Qual tipo de homem vocês preferem?
Quinta-feira, Agosto 24, 2006
Imaturidade
Há dois tipos de mulheres. As diretas e as obtusas. As primeiras agem sem pudor. Para estas, o trivial não faz vergonha e a bajulação não tem vez. Estas merecem respeito. O segundo tipo prende-se nos joguinhos, pretendendo causar ciúmes e implantar dúvidas no parceiro, pelo simples fato de sentir prazer em despertar desconfianças para depois dar o afago e ainda sair de inocente. É a pobreza de espírito em forma de ação.
Ele: posso lhe telefonar mais tarde?

Ela: hum... pode! Não... não pode. Ah, não sei se estarei em casa.... nem sei se eu poderia atender o celular...
Nota da jogadora (no dia seguinte): ora pois, por que raios eu fiz isto com ele se no fundo eu queria mesmo era que ele me ligasse? Sou uma completa id#@&*!##ota.
Ele: posso lhe telefonar mais tarde?

Ela: hum... pode! Não... não pode. Ah, não sei se estarei em casa.... nem sei se eu poderia atender o celular...
Nota da jogadora (no dia seguinte): ora pois, por que raios eu fiz isto com ele se no fundo eu queria mesmo era que ele me ligasse? Sou uma completa id#@&*!##ota.
Segunda-feira, Agosto 21, 2006
Intimidade Íntima Adjacente
A sala estava repleta de pessoas. No centro, havia uma grande mesa. A decoração era impecável e os convidados, todos a sorrir. Lá fora, a chuva insistia em fazer parte daquela noite especial. A sala era quadrada e aconchegante. Aos fundos, a lenha ardia na lareira. O piso era forrado por um tapete bege que combinava com o lustre que pendia exatamente sobre a mesa retangular. Havia uma enorme quantidade de guloseimas. O bolo era magnífico e também, podia-se reparar na extravagante quantidade de chocolates e salgados. Quase todos estavam ali. Havia bebidas de todos os gostos e iogurtes. Bolas decoravam os recantos do teto.
A vigia da casa, uma cachorra da raça spainel, adentrou e mesmo molhada, não deu a mínima para o glamour da ocasião. Foi subindo a escadaria dando no segundo andar. Quando chegou ao topo, seguiu afoita pelo corredor indo de encontro à porta no fim do caminho. Ela estava encostada. Foi abrindo vagarosamente e então parou. Lá dentro, ele estava sentado, de costas para o animalzinho. Olhava pela janela e se distraía com a chuva que caía continuamente e os arbustos a balançarem de acordo com a ventania. A luz da lua refletia na torre do farol e este por sua vez iluminava toda a baía que fazia parte da visão espetacular que ele tinha.
Ele sempre se importou com isto. Para ele, era imprescindível ficar ali, retocando sua vida com momentos de solidão. Lá embaixo os convidados distraiam-se com a música e o vinho. Não faltavam opções. Seu melhor amigo estava lá embaixo, sua melhor amiga, não. Na verdade, ainda faltavam alguns convidados, mas eles iam chegando aos poucos. Mais uma vez a campainha tocava. Ele não percebeu, mas outras pessoas chegavam. Ele continuava imerso em pensamentos. Mais uma vez o sinal ecoava no primeiro andar e mais uma vez ele não se dava conta, dessa vez sua melhor amiga chegava. Depois ainda chegariam outros convidados também importantes. O fato era que a casa ia enchendo.
De repente, um estrondo. Uma das portas do corredor se abriu e ela saiu pisando sorrateiramente. Estava divina. Vestia um longo. Foi descendo o primeiro vão de escadas e parou para as fotos. Todos estavam lá embaixo. Ela recebia os aplausos sorrindo e ajeitando-se por dentro da roupa. Por entre murmúrios de alegria e assobios, ela foi descendo as escadas até chegar aos convidados. Um a um, ela foi cumprimentando e recebendo os parabéns seguidos dos elogios incansáveis. Pousou para as fotos com suas amigas. Pegou uma taça de champagne e então se preparou para escutar os discursos preparados especialmente para ela.
Lá em cima, o silêncio era quase triunfante. A cadela foi entrando pelo aposento e num salto, estava em cima da cama. Ali deitou e deixou-se ficar.
Lá embaixo a festa ia ganhando contorno. Todos riam e ansiavam pelo partir do bolo.
Lá em cima, ele, mergulhado em pensamentos, nem notava o tumulto causado pelo furor da entrada da dona da festa.
Lá embaixo, a dona da festa, se perdia na mesa, antes mesmo do prato principal.
Lá em cima não havia nada disso. Ele levantou e abriu a porta da sacada. Sem olhar para trás, foi descendo pela escada lateral indo parar no jardim. Imediatamente a cadela saiu em disparada e passou pelo corredor, desceu os dois vãos de escadas e passou pelo meio da sala, ignorando os convidados, ignorando a festa como um todo. Sua dona, que por sinal era a dona da festa, percebeu o movimento brusco e agitado e percebeu também os latidos.
Lá fora, na chuva, ele virou-se e viu que a cadela o seguia. Ela subiu no vão da janela e ficou mirando-o. Então ele deu dois passos para trás e parou. Refletiu um instante e quis voltar. Ela mandou que parassem a música. Os convidados sem entender seguiam-na com os olhares. Ela foi se aproximando da sua cadela até parar bem próxima a janela. Não conseguia compreender o por quê do animal tão agitado a latir para o jardim vazio.
Então ele foi se aproximando cada vez mais, até que parou bem em frente a ela. Estava diante da cadela e da aniversariante. Ficou ali mirando as duas. Os convidados estavam um pouco atrás. Então, a dona da festa pegou o animal no colo e fechou a janela. Ele permaneceu lá fora, do outro lado do vidro. Lá dentro, ela virava de costas para ele, afagando o seu animal de estimação. Os convidados iam retomando seus lugares e suas conversas.
Foi quando ela hesitou em mandar aumentar a música novamente para que a festa voltasse ao normal. Olhou de relance para trás num gesto impensado e notou um vulto. Estava atônita. Correu até a porta e contra a vontade dos seus amigos e convidados, saiu em disparada correndo. Ia se molhando lá fora no jardim. Correu até a saída, abriu a cerca e descalçou as sandálias. Agora pisava na areia firme da praia. Ela já estava ofegante. Nessa altura, estava completamente ensopada e despenteada. A chuva era torrencial e ela quase não enxergava à sua frente.
O mar estava agitado e ela chegando até as pedras que rodeavam o limite do mar com a areia, foi subindo pelas pedras escorregadias, seu coração pulsava forte e ela já nem tinha maquiagem. Olhou para trás e constatou que ninguém a seguia. E então, chegou ao cume. Parou. A luz que brilhava na sua frente ofuscava sua visão. Lá dentro da sua casa, os convidados estavam perplexos com aquela atitude inexplicável. Lá fora, nas pedras altas, ela estava espantada. Tentou se aproximar da luz, mas não conseguia se mover. Faltava um minuto para acabar a noite e ela nem tinha cantado parabéns com os convidados. Temia ter que voltar e enfrentá-los sem uma explicação plausível. E pior, a noite estava por acabar e ela não ganharia parabéns. Agora eram trinta segundos. Estava triste. A luz que refletia em sua frente se apagou. Então ela sentiu uma sensação de conforto. Um arrepio na espinha. Como se alguém passasse por ela e tocasse em sua face.
Nesse instante, o farol que iluminava o mar lá de cima da torre, o mesmo farol que ele estava contemplando de dentro do quarto, iluminou a areia da praia por onde ela tinha corrido até chegar nas pedras altas. E havia algo escrito em letras garrafais na areia bem em frente aos coqueirais.
Não estava escrito parabéns...

Estava escrito: enquanto eu era vivo, eu te amei!
Nota: não sei o que me fez criar este texto, e nem era de madrugada. Penso eu de que...
A vigia da casa, uma cachorra da raça spainel, adentrou e mesmo molhada, não deu a mínima para o glamour da ocasião. Foi subindo a escadaria dando no segundo andar. Quando chegou ao topo, seguiu afoita pelo corredor indo de encontro à porta no fim do caminho. Ela estava encostada. Foi abrindo vagarosamente e então parou. Lá dentro, ele estava sentado, de costas para o animalzinho. Olhava pela janela e se distraía com a chuva que caía continuamente e os arbustos a balançarem de acordo com a ventania. A luz da lua refletia na torre do farol e este por sua vez iluminava toda a baía que fazia parte da visão espetacular que ele tinha.
Ele sempre se importou com isto. Para ele, era imprescindível ficar ali, retocando sua vida com momentos de solidão. Lá embaixo os convidados distraiam-se com a música e o vinho. Não faltavam opções. Seu melhor amigo estava lá embaixo, sua melhor amiga, não. Na verdade, ainda faltavam alguns convidados, mas eles iam chegando aos poucos. Mais uma vez a campainha tocava. Ele não percebeu, mas outras pessoas chegavam. Ele continuava imerso em pensamentos. Mais uma vez o sinal ecoava no primeiro andar e mais uma vez ele não se dava conta, dessa vez sua melhor amiga chegava. Depois ainda chegariam outros convidados também importantes. O fato era que a casa ia enchendo.
De repente, um estrondo. Uma das portas do corredor se abriu e ela saiu pisando sorrateiramente. Estava divina. Vestia um longo. Foi descendo o primeiro vão de escadas e parou para as fotos. Todos estavam lá embaixo. Ela recebia os aplausos sorrindo e ajeitando-se por dentro da roupa. Por entre murmúrios de alegria e assobios, ela foi descendo as escadas até chegar aos convidados. Um a um, ela foi cumprimentando e recebendo os parabéns seguidos dos elogios incansáveis. Pousou para as fotos com suas amigas. Pegou uma taça de champagne e então se preparou para escutar os discursos preparados especialmente para ela.
Lá em cima, o silêncio era quase triunfante. A cadela foi entrando pelo aposento e num salto, estava em cima da cama. Ali deitou e deixou-se ficar.
Lá embaixo a festa ia ganhando contorno. Todos riam e ansiavam pelo partir do bolo.
Lá em cima, ele, mergulhado em pensamentos, nem notava o tumulto causado pelo furor da entrada da dona da festa.
Lá embaixo, a dona da festa, se perdia na mesa, antes mesmo do prato principal.
Lá em cima não havia nada disso. Ele levantou e abriu a porta da sacada. Sem olhar para trás, foi descendo pela escada lateral indo parar no jardim. Imediatamente a cadela saiu em disparada e passou pelo corredor, desceu os dois vãos de escadas e passou pelo meio da sala, ignorando os convidados, ignorando a festa como um todo. Sua dona, que por sinal era a dona da festa, percebeu o movimento brusco e agitado e percebeu também os latidos.
Lá fora, na chuva, ele virou-se e viu que a cadela o seguia. Ela subiu no vão da janela e ficou mirando-o. Então ele deu dois passos para trás e parou. Refletiu um instante e quis voltar. Ela mandou que parassem a música. Os convidados sem entender seguiam-na com os olhares. Ela foi se aproximando da sua cadela até parar bem próxima a janela. Não conseguia compreender o por quê do animal tão agitado a latir para o jardim vazio.
Então ele foi se aproximando cada vez mais, até que parou bem em frente a ela. Estava diante da cadela e da aniversariante. Ficou ali mirando as duas. Os convidados estavam um pouco atrás. Então, a dona da festa pegou o animal no colo e fechou a janela. Ele permaneceu lá fora, do outro lado do vidro. Lá dentro, ela virava de costas para ele, afagando o seu animal de estimação. Os convidados iam retomando seus lugares e suas conversas.
Foi quando ela hesitou em mandar aumentar a música novamente para que a festa voltasse ao normal. Olhou de relance para trás num gesto impensado e notou um vulto. Estava atônita. Correu até a porta e contra a vontade dos seus amigos e convidados, saiu em disparada correndo. Ia se molhando lá fora no jardim. Correu até a saída, abriu a cerca e descalçou as sandálias. Agora pisava na areia firme da praia. Ela já estava ofegante. Nessa altura, estava completamente ensopada e despenteada. A chuva era torrencial e ela quase não enxergava à sua frente.
O mar estava agitado e ela chegando até as pedras que rodeavam o limite do mar com a areia, foi subindo pelas pedras escorregadias, seu coração pulsava forte e ela já nem tinha maquiagem. Olhou para trás e constatou que ninguém a seguia. E então, chegou ao cume. Parou. A luz que brilhava na sua frente ofuscava sua visão. Lá dentro da sua casa, os convidados estavam perplexos com aquela atitude inexplicável. Lá fora, nas pedras altas, ela estava espantada. Tentou se aproximar da luz, mas não conseguia se mover. Faltava um minuto para acabar a noite e ela nem tinha cantado parabéns com os convidados. Temia ter que voltar e enfrentá-los sem uma explicação plausível. E pior, a noite estava por acabar e ela não ganharia parabéns. Agora eram trinta segundos. Estava triste. A luz que refletia em sua frente se apagou. Então ela sentiu uma sensação de conforto. Um arrepio na espinha. Como se alguém passasse por ela e tocasse em sua face.
Nesse instante, o farol que iluminava o mar lá de cima da torre, o mesmo farol que ele estava contemplando de dentro do quarto, iluminou a areia da praia por onde ela tinha corrido até chegar nas pedras altas. E havia algo escrito em letras garrafais na areia bem em frente aos coqueirais.
Não estava escrito parabéns...

Estava escrito: enquanto eu era vivo, eu te amei!
Nota: não sei o que me fez criar este texto, e nem era de madrugada. Penso eu de que...
Quinta-feira, Agosto 17, 2006
Lição
Largou a cesta e caminhou até à beira do mar. Resolveu sentar e contemplar o pôr do sol. Soltou os cabelos e levantando os braços, espreguiçou-se bocejando. Encurvando seu corpo para trás, deixou-se deitar na grama alta e ficou olhando o céu azul. Nenhuma nuvem. Seus lábios pendiam sutilmente para o canto denunciando distração. O silêncio era seu único aliado entre os pensamentos vagos e dispersos. Fechou os olhos e adormeceu. Estava cansada e nem se importava com a cesta deixada para trás. Agora no sonho, ela cavalgava segurando um chapéu branco que combinava detalhadamente com seu longo vestido. Sentia a leve brisa no rosto aparentemente feliz. Era um sonho comum.
Desceu do cavalo e resolveu prosseguir pelo caminho íngreme a pé. Estava descalça e por isso não tinha pressa. Foi subindo o caminho rochoso e ficando ofegante. Lá de cima a lua era sua única companhia.
Quando chegou ao topo da montanha viu um homem sentado, contemplando a linha do horizonte. Então ela pisou num galho seco e imediatamente foi percebida pelo outro:
- Boa noite senhorita?
- Boa... Boa noite – disse a moça toda assustada.
- Sente-se, por favor.
- Não, obrigada.
Ela caminhou até à beira do precipício e ficou estática mirando o reflexo da lua no mar agitado lá embaixo. Esqueceu da presença do rapaz e deixou escapar uma lágrima. O outro levantou e caminhou até ficar lado a lado com a moça. Ele não dizia nada. Apenas olhava fixamente o mar quebrando nas pedras. De repente o silêncio foi quebrado:
- Você tem fé? – perguntou a moça.
- Não. Nem fé nem esperança. – respondeu ele.
Nesse instante ela o olhou e arriscou perguntar o por quê, mas não teve coragem. Deu meia volta e resolveu deixá-lo ali, pois se ele não tinha fé, não era digno de sua amizade. Preferia nem o conhecer. Quando ia descendo, uma pergunta veio em sua mente, olhou depressa para trás, mas não viu o homem misterioso. Voltou correndo à beira do penhasco e tratou de olhar lá embaixo, mas enganava-se. Ele não tinha se jogado. Ficou sem entender.
Foi então que ela acordou e viu que era tudo um sonho. Um sonho enigmático! Levantou e ficou sentada mirando o lago, dispersa. Não se lembrava do sonho totalmente. Então foi pegar sua cesta. O sol já se escondia quase totalmente. Abocanhou uma maçã e nesse exato momento recordou o homem que sumira no seu sonho. Correu de volta até a beira do lago e lembrou-se do penhasco. Foi aos poucos repassando o sonho em sua mente. Lembrou de quase tudo. Só uma dúvida lhe assombrava. Ela não conseguia se lembrar sobre o que o rapaz havia respondido, quando ela tinha perguntado sobre fé...
Terminou de comer a maçã e pensou na Eva. A moça se imaginou no lugar dela, mas não conhecia ninguém que pudesse estar no lugar de Adão, pelo menos em sua vida. De repente anoiteceu, o tempo virou e o mar ficou agitado. Então ela lembrou da resposta do rapaz.
Ao rapaz do sonho sem fé e sem esperança coube o lugar da serpente...

Você pode desistir se quiser, mas lembre-se, desistir é um hábito difícil de largar.
Nota: meus caros, eu não desisti da blogosfera! Apenas meu tempo anda passando depressa...
Desceu do cavalo e resolveu prosseguir pelo caminho íngreme a pé. Estava descalça e por isso não tinha pressa. Foi subindo o caminho rochoso e ficando ofegante. Lá de cima a lua era sua única companhia.
Quando chegou ao topo da montanha viu um homem sentado, contemplando a linha do horizonte. Então ela pisou num galho seco e imediatamente foi percebida pelo outro:
- Boa noite senhorita?
- Boa... Boa noite – disse a moça toda assustada.
- Sente-se, por favor.
- Não, obrigada.
Ela caminhou até à beira do precipício e ficou estática mirando o reflexo da lua no mar agitado lá embaixo. Esqueceu da presença do rapaz e deixou escapar uma lágrima. O outro levantou e caminhou até ficar lado a lado com a moça. Ele não dizia nada. Apenas olhava fixamente o mar quebrando nas pedras. De repente o silêncio foi quebrado:
- Você tem fé? – perguntou a moça.
- Não. Nem fé nem esperança. – respondeu ele.
Nesse instante ela o olhou e arriscou perguntar o por quê, mas não teve coragem. Deu meia volta e resolveu deixá-lo ali, pois se ele não tinha fé, não era digno de sua amizade. Preferia nem o conhecer. Quando ia descendo, uma pergunta veio em sua mente, olhou depressa para trás, mas não viu o homem misterioso. Voltou correndo à beira do penhasco e tratou de olhar lá embaixo, mas enganava-se. Ele não tinha se jogado. Ficou sem entender.
Foi então que ela acordou e viu que era tudo um sonho. Um sonho enigmático! Levantou e ficou sentada mirando o lago, dispersa. Não se lembrava do sonho totalmente. Então foi pegar sua cesta. O sol já se escondia quase totalmente. Abocanhou uma maçã e nesse exato momento recordou o homem que sumira no seu sonho. Correu de volta até a beira do lago e lembrou-se do penhasco. Foi aos poucos repassando o sonho em sua mente. Lembrou de quase tudo. Só uma dúvida lhe assombrava. Ela não conseguia se lembrar sobre o que o rapaz havia respondido, quando ela tinha perguntado sobre fé...
Terminou de comer a maçã e pensou na Eva. A moça se imaginou no lugar dela, mas não conhecia ninguém que pudesse estar no lugar de Adão, pelo menos em sua vida. De repente anoiteceu, o tempo virou e o mar ficou agitado. Então ela lembrou da resposta do rapaz.
Ao rapaz do sonho sem fé e sem esperança coube o lugar da serpente...

Você pode desistir se quiser, mas lembre-se, desistir é um hábito difícil de largar.
Nota: meus caros, eu não desisti da blogosfera! Apenas meu tempo anda passando depressa...
Terça-feira, Agosto 01, 2006
Sagacidade
Terminou de dar milho aos pombos e levantou-se. Ajeitou o chapéu e atravessou a avenida. Agora estava diante do museu. Guardou as mãos no bolso e entrou vagarosamente. Lá dentro do salão as pessoas admiravam o refinado da arte. Quadros, esculturas, telas, um mundo de acabamentos perfeitos. Pintores famosos que reinventaram a arte. Uma delícia aos olhos.
Ele entrou na primeira porta à esquerda. Várias pessoas admiravam uma coleção de quadros. Voltou e decidiu entrar na segunda porta à esquerda. Havia um grupo de estudantes. Saiu depressa e resolveu optar pela terceira porta à direita. Ali, percebeu que havia muitas pessoas. Um grupo de turistas tomava a sala.
Ele então voltou ao salão principal. Todas as salas possuíam um cavalete extenso onde as pessoas podiam treinar suas habilidades tentando imitar o artista preferido. Era um tipo de passatempo, de distração. Ele sabia disso. Respirou fundo e foi até a quarta sala à esquerda. Abaixou a cabeça e entrou depressa esbarrando numa jovem que timidamente iniciava um desenho em aquarela tentando despretensiosamente imitar Michelangelo. A mulher caiu derrubando sua parte do cavalete espalhando toda a tinta pelo chão da sala. Entre pedido de desculpas o homem tentou ajudá-la em vão. Deu um passo a frente escorregando e tombando por cima das pranchetas. Era uma confusão de tons e cores. Toda a sala o olhava. A mulher de macacão preto, espantada e nervosa levantou e foi pedir ajuda para um funcionário que já se aproximava ao ver a algazarra dentro da sala número quatro. O homem permanecia desolado, sujo, todo colorido, não sabia como agir. Com a ajuda do funcionário da administração, ele se reergueu. Mas caiu escorregando novamente
A mulher saiu da sala quatro e do lado de fora tratou de se apressar. Entrou na terceira porta à direita, a sala dos turistas, que ficava justamente de frente para a sala quatro, a tal sala do acidente, e aproveitando-se da distração do público que agora se concentrava na sala da confusão, ela tirou seu macacão preto e o entregou a um rapaz que saía de mãos dadas com sua namorada. Estes saíram devagar sem prestar atenção no tumulto causado. A mulher agora estava de óculos e com um lenço na cabeça. Vestia um tailleur cinza. Ficou ali olhando para fora esperando o momento exato. De repente avistou um dos vigias do andar e bem quando ele passava em frente a sua porta, ela num gesto inocente, tocou numa tela que estava pendurada em sua frente. Rapidamente o alarme soou e o guarda entrou na sala. Ela virou-se constrangida e foi repreendida pelo guarda que dizia em tom áspero, que ninguém poderia tocar nas obras originais.
Ele foi até o fim da sala onde havia a monitoração das câmeras. Precisava desligar o alarme e as câmeras por trinta segundos para restabelecer o monitoramento uma vez que o alarme havia soado. Foi aí que ela deu um grito. Com as mãos no pescoço e com voz de choro reclamava por seu colar. Correu em direção ao guarda que ainda não havia digitado o código de conexão. Disse ao guarda ainda que ela estava na sala juntamente com um estranho casal que a encarava o tempo todo e que o casal por duas vezes passou por trás dela enquanto ela contemplava as pinturas mais ao canto. O guarda correu até a porta e avistou o casal suspeito. Lá na frente o jovem guardava o macacão preto por baixo do braço. Ele e a sua namorada caminhavam até a escadaria que dava para o segundo andar. A mulher foi até o guarda e apontando para a dupla suspeita, pediu ajuda com a voz embargada de choro. O guarda saiu correndo pelo corredor atrás do casal.
Agora a mulher de tailleur cinza estava a sós na sala número três da direita novamente. Na sala quatro à esquerda, exatamente em frente a sua, o homem tentava se limpar tirando o excesso de tinta que havia impregnado suas vestes. A multidão que havia se formado, congestionava a entrada do local do acidente. Ela aproveitando da solidão meteu a mão na tela original e arrancou a pintura. Debaixo de sua roupa ela trazia uma cópia exata da obra. Trocou as duas. E guardou a original consigo. Olhou o relógio e ainda faltavam quarenta segundos para o limite. Ela sabia que mesmo tendo conseguido distrair o guarda e impedindo que ele religasse a conexão em trinta segundos, ela corria risco, pois o sistema se reconectava automaticamente depois de três minutos. Caminhou até o toalete e esperou.
O guardava caminhava a passos largos quando o casal se separou. A moça jovem que acompanhava o seu namorado, voltou caminhando depressa na contra mão do guarda, carregando consigo o macacão preto:
- Moço, meu namorado acaba de achar um colar de diamantes. Estávamos procurando algum funcionário para avisarmos, mas o único deste andar estava ocupado ajudando um senhor que derrubara o cavalete na sala número quatro. Meu namorado e eu então decidimos ir até o segundo andar procurar alguém da administração para avisarmos do ocorrido.
- Onde está seu namorado?
- Ele foi para a escada, já disse. Está indo ao segundo andar entregar o colar à administração.
- Venha comigo minha jovem. Há uma queixa de roubo. Uma senhora disse que foi roubada por um casal. E acusou vocês.
- Incrível! Como pode? Eu e meu noivo encontramos o colar jogado no canto da sala. Havia também este par de brincos.
E estendendo a mão, ela entregou um par de brincos ao guarda e apontou com o dedo dizendo que seu namorado estava com o colar. O guarda, confuso largou o braço da jovem que disse precisar ir ao toalete. Ela conseguiu se livrar do guarda que ia atrás do rapaz.
A moça entrou no toalete segurando o macacão preto e o vestiu pelo avesso, seu macacão preto era agora amarelo. A mulher de tailleur cinza que retocava a maquiagem lhe entregou a obra de arte original que havia roubado. A moça de macacão amarelo escondeu a obra de arte original por debaixo de sua roupa. A mulher de tailleur cinza saiu enquanto a jovem terminava de vestir o macacão pelo avesso. A mulher de tailleur cinza foi até a sala quatro onde o homem explicava o acidente ao funcionário da administração e a multidão de curiosos já se dispersava. Nesse momento a jovem de macacão amarelo saía do toalete e caminhava seguramente para a saída do museu.
O homem todo colorido, causador do acidente com o cavalete, terminou de se limpar da forma que podia e saiu meio confuso, tropeçando nas pessoas que teimavam em permanecer no meio do corredor. A mulher de tailleur cinza dirigiu-se até o segundo andar indo encontrar com o rapaz que já estava acompanhado do guarda e explicava ao pessoal da administração, que achara o colar jogado na sala três do térreo. Quando a mulher o viu, pediu o colar e o jovem rapidamente reconheceu a mulher. O guarda mais confuso que nunca, devolveu o par de brincos e perguntou se a mulher confirmava sua denúncia de roubo quanto ao colar, mas esta já se desculpava com o rapaz e agradecia por ele ter encontrado sua jóia.
Depois do acerto de contas, ela pediu desculpas ao guarda e se despediu. Deu meia volta e entregou uma gorjeta ao rapaz que agradeceu com um aceno. Lá no primeiro andar, já na saída, ela olhou para trás, um sorriso irônico no canto da boca acusava a perfeição do plano. Já no primeiro andar, de volta a sala três, de volta a rotina, o guarda chamava a atenção dos visitantes para que eles não tocassem nas peças originais.
O jovem foi o último a sair. Ainda teve que contar tudo ao pessoal da administração antes de ser liberado. Minutos depois ele desceu e passando pelo saguão despediu-se do guarda simpático, indo embora assobiando. Lá fora, do outro lado da rua, o homem ainda um pouco sujo de tinta, acompanhado da mulher de tailleur cinza e da moça de macacão amarelo, esperavam pelo rapaz. Ele aguardava impacientemente o semáforo fechar para atravessar a avenida movimentada e encontrar com os outros. Sua tensão era tanta que ele conseguia rir ao se lembrar do guarda, contar os veículos estacionados na calçada, os automóveis que passavam em alta velocidade. Enquanto o trio o esperava do outro lado.
O quarteto: nosso plano foi perfeito e o guarda foi simpático!

O guarda lá dentro (pensativo): pobre rapaz, achou o colar e foi acusado injustamente como se fosse um gato entre os pombos...
Nota: acabei de criar este roubo em minha mente. Agora vou ter que ir ali me entregar...
Ele entrou na primeira porta à esquerda. Várias pessoas admiravam uma coleção de quadros. Voltou e decidiu entrar na segunda porta à esquerda. Havia um grupo de estudantes. Saiu depressa e resolveu optar pela terceira porta à direita. Ali, percebeu que havia muitas pessoas. Um grupo de turistas tomava a sala.
Ele então voltou ao salão principal. Todas as salas possuíam um cavalete extenso onde as pessoas podiam treinar suas habilidades tentando imitar o artista preferido. Era um tipo de passatempo, de distração. Ele sabia disso. Respirou fundo e foi até a quarta sala à esquerda. Abaixou a cabeça e entrou depressa esbarrando numa jovem que timidamente iniciava um desenho em aquarela tentando despretensiosamente imitar Michelangelo. A mulher caiu derrubando sua parte do cavalete espalhando toda a tinta pelo chão da sala. Entre pedido de desculpas o homem tentou ajudá-la em vão. Deu um passo a frente escorregando e tombando por cima das pranchetas. Era uma confusão de tons e cores. Toda a sala o olhava. A mulher de macacão preto, espantada e nervosa levantou e foi pedir ajuda para um funcionário que já se aproximava ao ver a algazarra dentro da sala número quatro. O homem permanecia desolado, sujo, todo colorido, não sabia como agir. Com a ajuda do funcionário da administração, ele se reergueu. Mas caiu escorregando novamente
A mulher saiu da sala quatro e do lado de fora tratou de se apressar. Entrou na terceira porta à direita, a sala dos turistas, que ficava justamente de frente para a sala quatro, a tal sala do acidente, e aproveitando-se da distração do público que agora se concentrava na sala da confusão, ela tirou seu macacão preto e o entregou a um rapaz que saía de mãos dadas com sua namorada. Estes saíram devagar sem prestar atenção no tumulto causado. A mulher agora estava de óculos e com um lenço na cabeça. Vestia um tailleur cinza. Ficou ali olhando para fora esperando o momento exato. De repente avistou um dos vigias do andar e bem quando ele passava em frente a sua porta, ela num gesto inocente, tocou numa tela que estava pendurada em sua frente. Rapidamente o alarme soou e o guarda entrou na sala. Ela virou-se constrangida e foi repreendida pelo guarda que dizia em tom áspero, que ninguém poderia tocar nas obras originais.
Ele foi até o fim da sala onde havia a monitoração das câmeras. Precisava desligar o alarme e as câmeras por trinta segundos para restabelecer o monitoramento uma vez que o alarme havia soado. Foi aí que ela deu um grito. Com as mãos no pescoço e com voz de choro reclamava por seu colar. Correu em direção ao guarda que ainda não havia digitado o código de conexão. Disse ao guarda ainda que ela estava na sala juntamente com um estranho casal que a encarava o tempo todo e que o casal por duas vezes passou por trás dela enquanto ela contemplava as pinturas mais ao canto. O guarda correu até a porta e avistou o casal suspeito. Lá na frente o jovem guardava o macacão preto por baixo do braço. Ele e a sua namorada caminhavam até a escadaria que dava para o segundo andar. A mulher foi até o guarda e apontando para a dupla suspeita, pediu ajuda com a voz embargada de choro. O guarda saiu correndo pelo corredor atrás do casal.
Agora a mulher de tailleur cinza estava a sós na sala número três da direita novamente. Na sala quatro à esquerda, exatamente em frente a sua, o homem tentava se limpar tirando o excesso de tinta que havia impregnado suas vestes. A multidão que havia se formado, congestionava a entrada do local do acidente. Ela aproveitando da solidão meteu a mão na tela original e arrancou a pintura. Debaixo de sua roupa ela trazia uma cópia exata da obra. Trocou as duas. E guardou a original consigo. Olhou o relógio e ainda faltavam quarenta segundos para o limite. Ela sabia que mesmo tendo conseguido distrair o guarda e impedindo que ele religasse a conexão em trinta segundos, ela corria risco, pois o sistema se reconectava automaticamente depois de três minutos. Caminhou até o toalete e esperou.
O guardava caminhava a passos largos quando o casal se separou. A moça jovem que acompanhava o seu namorado, voltou caminhando depressa na contra mão do guarda, carregando consigo o macacão preto:
- Moço, meu namorado acaba de achar um colar de diamantes. Estávamos procurando algum funcionário para avisarmos, mas o único deste andar estava ocupado ajudando um senhor que derrubara o cavalete na sala número quatro. Meu namorado e eu então decidimos ir até o segundo andar procurar alguém da administração para avisarmos do ocorrido.
- Onde está seu namorado?
- Ele foi para a escada, já disse. Está indo ao segundo andar entregar o colar à administração.
- Venha comigo minha jovem. Há uma queixa de roubo. Uma senhora disse que foi roubada por um casal. E acusou vocês.
- Incrível! Como pode? Eu e meu noivo encontramos o colar jogado no canto da sala. Havia também este par de brincos.
E estendendo a mão, ela entregou um par de brincos ao guarda e apontou com o dedo dizendo que seu namorado estava com o colar. O guarda, confuso largou o braço da jovem que disse precisar ir ao toalete. Ela conseguiu se livrar do guarda que ia atrás do rapaz.
A moça entrou no toalete segurando o macacão preto e o vestiu pelo avesso, seu macacão preto era agora amarelo. A mulher de tailleur cinza que retocava a maquiagem lhe entregou a obra de arte original que havia roubado. A moça de macacão amarelo escondeu a obra de arte original por debaixo de sua roupa. A mulher de tailleur cinza saiu enquanto a jovem terminava de vestir o macacão pelo avesso. A mulher de tailleur cinza foi até a sala quatro onde o homem explicava o acidente ao funcionário da administração e a multidão de curiosos já se dispersava. Nesse momento a jovem de macacão amarelo saía do toalete e caminhava seguramente para a saída do museu.
O homem todo colorido, causador do acidente com o cavalete, terminou de se limpar da forma que podia e saiu meio confuso, tropeçando nas pessoas que teimavam em permanecer no meio do corredor. A mulher de tailleur cinza dirigiu-se até o segundo andar indo encontrar com o rapaz que já estava acompanhado do guarda e explicava ao pessoal da administração, que achara o colar jogado na sala três do térreo. Quando a mulher o viu, pediu o colar e o jovem rapidamente reconheceu a mulher. O guarda mais confuso que nunca, devolveu o par de brincos e perguntou se a mulher confirmava sua denúncia de roubo quanto ao colar, mas esta já se desculpava com o rapaz e agradecia por ele ter encontrado sua jóia.
Depois do acerto de contas, ela pediu desculpas ao guarda e se despediu. Deu meia volta e entregou uma gorjeta ao rapaz que agradeceu com um aceno. Lá no primeiro andar, já na saída, ela olhou para trás, um sorriso irônico no canto da boca acusava a perfeição do plano. Já no primeiro andar, de volta a sala três, de volta a rotina, o guarda chamava a atenção dos visitantes para que eles não tocassem nas peças originais.
O jovem foi o último a sair. Ainda teve que contar tudo ao pessoal da administração antes de ser liberado. Minutos depois ele desceu e passando pelo saguão despediu-se do guarda simpático, indo embora assobiando. Lá fora, do outro lado da rua, o homem ainda um pouco sujo de tinta, acompanhado da mulher de tailleur cinza e da moça de macacão amarelo, esperavam pelo rapaz. Ele aguardava impacientemente o semáforo fechar para atravessar a avenida movimentada e encontrar com os outros. Sua tensão era tanta que ele conseguia rir ao se lembrar do guarda, contar os veículos estacionados na calçada, os automóveis que passavam em alta velocidade. Enquanto o trio o esperava do outro lado.
O quarteto: nosso plano foi perfeito e o guarda foi simpático!

O guarda lá dentro (pensativo): pobre rapaz, achou o colar e foi acusado injustamente como se fosse um gato entre os pombos...
Nota: acabei de criar este roubo em minha mente. Agora vou ter que ir ali me entregar...