terça-feira, fevereiro 23, 2010

Infinito

As estrelas salpicavam o brilho da noite de luar. Na casa de praia onde estavam a divisão era ampla, demasiado ampla, onde o pé-direito elevado se impunha à decoração minimalista.

Uma das paredes do quarto estava completamente coberta por uma tela que ambos pintaram. No centro dela surgia o universo retratado. De um buraco negro caíam as letras desordenadas que formavam maio e agosto. Na parte de cima onde ele pintara, uma orquídea pendia sobre uma caixa de cartão. A caixa apresentava uma ranhura em forma de interrogação embora, se se atendesse ao detalhe, se vislumbrasse um sorriso. Num dos cartões lia-se touro-vênus. As cores escuras eram pausadas mas não sem vigor. O reflexo das palavras refletia um brilho forte que invadia o céu dela. Na parte dela as cores eram mais claras. A mão desenhada tocava com o indicador a caixa com cartões que suspendia-se no limite da imponderabilidade. O céu dela projetava palavras cruzadas formando leão-sol. Da outra mão, um girassol reluzia num agitado amarelo. Mais abaixo a tonalidade passava para um azul da cor do mar, e, do alto até embaixo, ela pontilhou estrelas da mesma cor das estrelas que salpicavam a vida real lá fora.

Ela, mais nova, mantinha a graça que o fascinara. Vestia um fato de banho garrido em cores que animavam uma felicidade que se esbatia. Ele, apesar da hora, arriscou sair. Abriu a porta, desceu a escadaria e correndo pela areia mergulhou de pronto como sempre fazia procurando o fundo do mar numa emersão forçada. Repetiu o gesto várias vezes como se a adrenalina se esgotasse ali.

Uma dor invadiu-lhe o peito, primeiro leve depois crescente. Lembrou que enquanto corria na areia, ele olhara para trás e ela, de pé, o seguia com o olhar, surpresa, mesmo calada. Uma onda imensa o projetou para cima num impulso impossível. Ele tornou a afundar e sentiu uma escuridão que o deixou em pânico.

A dor crescia na solidão que o silenciava. Afundou mais uma vez. Agora estava sem forças, afogado na fria água espumante. Sentiu a vida que nunca teve, chorou um choro nunca ouvido e, por um breve momento, sentiu a presença Dele, do conforto que desesperadamente procurava. Lembrou que ela o encontrara quando se conheceram e temia que não fosse encontrado dessa vez. Estava estranhamente tranquilo, não temia a morte, tão pouco louvava a vida. O silêncio veio para lhe calar os pensamentos, cada vez mais vagos, sempre distantes na infância.

Ela correu a gritar numa determinação cega. Não era fundo e ele sabia nadar. Mas ela sabia que o desmaio dificultaria o resgate. Conseguiu puxá-lo e na respiração boca-a-boca ele mexeu os lábios, sentindo a seda, o frescor suave feminino que o embalava.

Agarrou no braço dela, e, tirando do bolso um papelzinho dobrado e molhado, abriu-lhe a mão e disse-lhe, “está tudo aqui…”. Ela cerrou o punho e afirmou, “nunca o vou ler”. Sorriram num olhar que dispensava palavras.

Subiram a escadaria de volta à casa. “Eu também tenho uma surpresa para ti…”, ele franziu a testa como se esperasse dela essa provocação.

Chegaram ao sótão, um lugar só deles, iluminado por uma pequena clarabóia. Ele acercou-se da luz que dali emanava. O rosto cobriu-se de um branco pálido, a desilusão de não vislumbrar algo que procurava.

“O que se passa?”, perguntou-lhe ele num tom indeciso. “Não vejo a lua… era essa a surpresa?”.

Ela, sem responder, deitou-se no soalho colocando a cara onde os raios terminavam. Ele debruçou-se sobre ela e, perante o espanto, caiu ajoelhado. Os olhos dele, de um cinza esverdeado, eram agora azuis, profundamente escuros. Aproximou-se lentamente da cara dela. Agora tudo era mais nítido; nos olhos dela cintilavam as estrelas que os raios transportavam, nunca vira um céu assim. Na extremidade de um deles veio o espanto, conseguia ver a lua. E no deslumbramento de a contemplar, a lua soltou-se e escorreu pela face dele. Num movimento delicado apanhou a lágrima com um dedo. Pegou na mão ainda cerrada dela e depositou a gota no quadradinho de papel. Sorriu como uma criança e disse-lhe, “agora já o podes ler!”.

"Mas antes, diga-me, o que ocorreu lá fora?".

A luz despontava num incômodo desconcertante. Nunca se sentira tão pleno, emerso em paz.
Arriscou perguntar - onde estive?
Renasceste amor - afiançou-lhe ela, deixando cair uma lágrima que acariciou a face gêmea.

Comments:
Só as cinzas não renascem!
Aqui sentada, esses minutos lendo você, que delícia também renascida. Be infinitely happy, my sweet friend!
Beijo :)
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